Garotos do Ninho: sonhos interrompidos



Por: Camila Bairros
FutebolNews



Já faz três dias que o mundo do futebol acordou mais triste. Três dias que perdemos 10 meninos que mal conhecíamos. São três dias em que torcemos junto com as famílias dos três sobreviventes feridos, e que choramos com as dos que não resistiram.

No dia 8 de fevereiro, os meninos da base do Flamengo, conhecidos como Garotos do Ninho, estiveram em destaque na mídia, mas não por um resultado positivo no campeonato, antes fosse. Já são três dias de tristeza, homenagens e saudade.

Eram meninos que em poucos anos estariam nas nossas telas no domingo, defendendo o time que escolheram e trazendo muitas alegrias aos torcedores, realizando seus sonhos de criança. Mas a realidade foi cruel, e esses sonhos foram interrompidos. 

Arthur, Athila, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge, Pablo, Rykelmo, Samuel e Vitor, todos tinham entre 14 e 16 anos, e eram jogadores da base do Flamengo. Os jovens estavam em período de atividades pelo clube, mas como fortes chuvas atingiram a cidade do Rio de Janeiro no dia 7, quinta, os atletas foram liberados do treino da manhã de sexta, 8. Alguns possuíam famílias no estado, e voltaram para casa mais cedo para aproveitar o fim de semana. Muitos se mudaram para o Rio de Janeiro sozinhos, com o sonho de virarem jogadores profissionais de futebol, e por isso, mesmo sem treino, permaneceram no Centro de Treinamento. 

Reprodução: G1

Era 5h17 da manhã quando os bombeiros foram chamados para conter o fogo que começou no alojamento do CT Jorge Helal, conhecido como Ninho do Urubu, provavelmente devido à um curto circuito no ar-condicionado. Às 5h38, 19 minutos depois, o corpo de bombeiros chegou ao local, e conseguiu controlar o fogo em pouco menos de uma hora. 

Eram seis contêineres ligados, equipados com beliches, que serviam de dormitórios para os jogadores de 14 a 17 anos. Cada quarto tinha uma janela protegida por grades e portas que davam para um corretor com uma única porta de saída. De acordo com um funcionário que trabalha no setor administrativo do time, os meninos seriam transferidos na semana que vem para um novo CT. 

26 garotos estavam no local no momento do incêndio, que abrigava até 36 pessoas. 10 não conseguiram sair, porque estavam dormindo ou muito fracos pela intoxicação da fumaça. Outros três escaparam com diversos ferimentos. O certo é que todos os 16 sobreviventes terão que lidar com a dor de não ter conseguido salvar seus colegas de time, de escola, suas famílias. Os pais perderam filhos, os gramados, jovens talentos. 

Em depoimento, os sobreviventes contaram que dos 10 mortos, cinco estavam no quarto mais distante de onde ficava o ar-condicionado que teria dado início ao incêndio, e também o mais afastado da única saída. Também falaram que, ao perceber o calor e a fumaça no ambiente, começaram a quebrar as janelas para tentar se salvar, e disseram que os colegas pareciam estar desacordados.

Reprodução: DF Superesportes

Responsabilidade

Segundo o comitê de crise criado para o caso, o Flamengo tem trabalhado em dar apoio às famílias, colaborar na apuração dos fatos e tratar das indenizações pertinentes para que ninguém fique desamparado. O clube assumiu a responsabilidade, mas aguarda a investigação para encontrar os culpados da tragédia. Novos depoimentos da diretoria e dos sobreviventes serão recolhidos. 

A Prefeitura do Rio afirma que o time não tinha autorização para utilizar o espaço como dormitório, e que o clube havia informado que a área funcionava como estacionamento. O governo municipal informou ainda que o clube já recebeu 31 autos de infração, e 10 multas foram pagas. Segundo o Corpo de Bombeiros, o Flamengo possuía um projeto de segurança contra incêndios, e que desde 2010 fazia vistorias no local, tendo sido feita a última em novembro do ano passado. Mas segundo a corporação, era necessário resolver pendências como a mudança do layout e a ausência de dispositivos para a emissão de um certificado. 


Vítimas

Reprodução: Arquivo pessoal


Arthur Vinícius de Barros Silva Freitas: Zagueiro que completaria 15 anos no dia seguinte ao incêndio, no sábado. Jogava no Flamengo já há três anos, e no fim de 2018 chegou a ser convocado para a seleção brasileira sub-15. Morava com a mãe e a tia em Volta Redonda, no RJ. Às 4h17, uma hora antes de começar o incêndio, o menino havia postado em uma rede social que estava indo dormir. 

Reprodução: Arquivo pessoal
Athila Paixão: Natural de Sergipe, o atacante completaria 15 anos no dia 11 de março. Estava empolgado para o treino que faria no Maracanã na fatídica sexta-feira. Era jogador do Flamengo desde março de 2018.

Reprodução: Arquivo pessoal

Bernardo Pisetta: O goleiro de 14 anos era catarinense, e antes de chegar no Flamengo, em agosto do ano passado, já havia jogado no Athlético Paranaense e em equipes de futsal no Vale do Itajaí, em SC. 

Reprodução: Arquivo pessoal

Christian Esmério: Também goleiro, tinha 15 anos e já acumulava convocações para as categorias de base da seleção brasileira. Morador da comunidade de Congonha, em Madureira, dormiu no alojamento por conta da festa de aniversário que estavam organizando para o colega Arthur Vinícius.

Reprodução: Arquivo pessoal
Gedson Santos: O atacante de 14 anos, natural de Itararé, SP, não havia treinado pelo Flamengo ainda. Segundo um tio, estava no Rio há apenas uma semana, e antes era jogador do Athlético Paranaense. 

Reprodução: O Globo

Jorge Eduardo Santos: O volante de 15 anos era natural de Além Paraíba (MG), jogava futebol desde os 7 anos, e chegou às categorias de base do Flamengo aos 12. Chegou a ser capitão da equipe campeã carioca sub-15 em 2018.

Reprodução: O Globo
Pablo Henrique da Silva Matos: O zagueiro de 14 anos era primo do também zagueiro Werley, do Vasco. Natural de Oliveira, MG, estava no sub-15 do Flamengo desde o ano passado. 

Reprodução: Arquivo pessoal

Rykelmo de Souza Vianna:
Apelidado de Bolívia, era natural de Limeira, SP, e jogava no meio de campo. Completaria 17 anos no próximo dia 26. 


Reprodução: Veja

Samuel Thomas Rosa:  O lateral direito de 15 anos era morador de São João do Meriti, na Baixada Fluminense, mas preferiu dormir no CT para voltar para casa apenas na sexta. 

Reprodução: Arquivo pessoal

Vitor Isaías: O atacante tinha 15 anos e apenas seis meses de Flamengo. Nascido em Santa Catarina, começou a carreira no futsal do Figueirense. 



Feridos

Reprodução: G1
Cauan Emanuel: O atacante cearense de 14 anos foi o primeiro a receber alta do hospital. Ele estava internado desde sexta e no domingo recebeu alta da CTI no domingo, indo para o quarto. Na tarde desta segunda-feira foi liberado para ir para casa. 



Reprodução: Arquivo pessoal

Francisco Dyogo: Goleiro de 15 anos, apresenta quadro estável. Segundo representante, o jogador chegou a queimar um dedo da mão, mas nada grave. O garoto voltou a respirar sem a ajuda de aparelhos nesta segunda, e a expectativa dos familiares é de que ele deixe a CTI ainda hoje.


Reprodução: CBN
Jonatha Ventura: O quadro do zagueiro de 15 anos era o mais grave, já que teve cerca de 35% do corpo queimado. Segundo boletim médico divulgado hoje, o garoto evoluiu na recuperação e não está mais sedado, não apresentou febre nas últimas 24 horas e mostrou melhora das lesões pulmonares. 


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