Sim senhor Capitão?

Por: Paulo de Oliveira
Imagem: Folha de São Paulo


Daniel Alves capitão da Seleção Brasileira e jogador do São Paulo Futebol Clube. Dia 21/09, Rio de Janeiro - "porque as pessoas cantam o hino e é o momento patriota. Mas infelizmente o brasileiro não é patriota, fazem barulho na hora do hino e não estão nem aí, porque torcem pras equipes. Quando se fala de seleção e do país, tem de respeitar um pouco mais" – pediu o jogador.



Quando o atual capitão da seleção vem à público para dar uma declaração assim poucos meses depois de um título em casa, vale a reflexão. Quando o técnico da seleção anuncia a convocação, essa que desfalca deliberadamente clubes que estão disputando duas das três principais competições do calendário, vale o mesmo questionamento. Nessa semana teremos mais amistosos questionáveis da nossa seleção.



A definição mais importante de patriota de acordo com qualquer dicionário passa por "que ou aquele que ama a pátria e a ela presta serviços." E a principal definição de clubista é "relativo, apreciador ou pertencente a clube."



Olhando assim não vemos qualquer semelhança, e assim deve ser. Todo mundo nasce com uma pátria, argentinos, brasileiros, alemães, japoneses e assim por diante. Mas nem todos são clubistas, e  até mesmo entre torcedores há uma distinção entre quem é e quem não é.



E analisando assim, friamente, nenhum torcedor de seleção, seja ela qual for, se encaixa em nenhuma dessas definições. Torcer por uma seleção não é algo patriótico. Há brasileiros que torcem para N seleções diferentes, e é assim no mundo todo. Nem por isso são chamados de traidores ou contrários à Pátria.



É simples você ama seu clube do coração, você admira e gosta da sua seleção do coração. Você ama seu clube do coração apesar dele ter jogador X, você passa a gostar menos da sua seleção a partir da convocação do jogador X. Técnicos, atletas, formações táticas, origem, história, diretorias e tudo o mais que envolvem o futebol tem sempre mais de um ponto de vista, independente da pessoa ou de onde ela é.



Um torcedor que ama seu time a ponto de ir ao estádio em todos os jogos para apoiar e cobrar também, pode ser o mesmo que fica sabendo de um Brasil x Argentina e marca um compromisso no horário. Ao passo que alguém que se diz torcedor de um time e mal sabe a sua posição no campeonato, vai parar pra ver a sua seleção predileta jogar, seja por gostar dela, do seu estilo, ou de jogador X que atua num clube diferente e que agora está servindo sua seleção.



O torcedor da seleção da brasileira tem uma lista bem grande de desagrados, passando pelos desfalques em fases decisivas dos campeonatos de clubes, a amistosos caça níquel contra times sem qualquer expressão no cenário internacional e longe de solo brasileiro. O capitão do time do Brasil, que levantou em Junho um troféu no Maracanã, não pode e nem deve cobrar comprometimento de um torcedor. Torcedor este que vê o time perder pra um insosso Peru e depois, tem de acompanhar o selecionado partir para o outro lado do mundo para enfrentar as seleções de Senegal e Nigéria.



Se fosse um clube seria diferente? Certamente! Sempre haverá quem critique o calendário, o técnico, o craque do time, a direção, e até o roupeiro as vezes. Mas quem é fanático, apaixonado por seu clube enfrenta tudo isso numa quarta feira às 22h da noite morrendo de sono e tendo que acordar cedo no outro dia, e faz isso feliz. A mesma pessoa pode fazer ou deixar de fazer ambas as coisas, é assim que as coisas são, e se mudarem não há garantias de melhora, pois quando se trata de pessoas e sentimentos o seu melhor pode não ser o mesmo de outras pessoas de todas as partes do país e do mundo, quiçá será o mesmo de alguém do seu lado que compartilha as mesmas visões e convicções.



Não há explicações, cada um torce, assiste e convive com os clubes e seleções do jeito que acha melhor, essa é a beleza do esporte, e assim como a beleza e as familiaridades estão aí, a feiura e as diferenças também. Cabe a cada um viver com isso e embarcar ou não nesse barco. Forçar algo não é o caminho e nunca foi, às vezes acaba por criar um efeito normalmente diferente ou contrário do que se esperava no começo. Lidar com o ser humano é difícil, com milhares e milhares deles é ainda mais. E vamos sempre aprendendo ou não, colocando em prática ou não, o conhecimento adquirido.



Cabe à seleção brasileira e às suas lideranças, dentro e fora do campo, decidir se eles aprenderam e aprenderão no futuro, e se vão ou não colocar tudo isso em prática.
Capitão da seleção Daniel Alves durante partida.

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